Wednesday, November 1, 2006

Teste pró CT1DT

Um conto à lareira em noite de chuva

O despique

O Zéi do Couço era almocreve!

Com diligência e tempo tornara-se um excelente mercador, especialista em todas as mercadorias rurais, e conseguira qualquer coisa de seu.

 Era ele, quase em rigoroso exclusivo, que tudo mercava e recovava, de e para o Monte da Cruz de Pedra, ao mesmo tempo que ia tentando arrastar a asa à única filha do lavrador, de quem já se sentia senhor e amo, tanto quanto escravo, mas sem qualquer resultado prático.

 A Raimundinha havia o fértil morgadio do Cerro Alto, que era qualquer coisa que se via, e que, junto com a graça, herdara de sua mãe.

 Esta “qualquer coisa que se via” equivale a algumas léguas de plantio de pão para a mesa, de papas quentes para as invernosas manhãs no monte, de rações e forragem para o gado de leite e tiro, de lã e queijo, de carga e monta, de caldos e de ovos sem esquecer o de cera e mel.

 Além barranco onde corria o ribeiro que matava a sede a uma viçosa horta que fornia de profusa verdura mais de vinte vendas em redor, começava o montado que dava avonde para as respectivas varas de marrãs capadas, de bácoras de cria, de cevados e de varrões, para alguns javardos de arribação e ainda para abundante caça de pena e pelo e também para uma boa mancheia de rolhas.

 Havia ainda uma extensão de um rubinéctar, de que os compadres mimoseados diziam ser “uma devina diliça”, além da perspectiva, que Deus a atrasasse por muitos anos, de se lhe juntar aquilo de que o Monte da Cruz de Pedra vivia, e que o sagaz lavrador mantinha activo e prolongava como seu.

 Era esta fazenda a ambição de maior anelo do Zéi do Couço que a queria a troco do seu nome que de muito pouco valeria para a merca.

Com o pensamento na Raimundinha levava ao monte muitas daquelas bugigangas tão do agrado das vaidades femininas, mas da Raimundinha nem um olhado e era a sua bojuda ama de leite, a Amália Quejera, quem regateava a qualidade, o preço, a conveniência e o recato daquelas frivolidades destinadas à morgada.

 

A terra tinha sido generosa! Pagara bem as sementes! E naquela quase noite daquele quase fim de Verão, ao abrigo das volumosas serras de palha que impediam a corrente de norte que tinha ajudado, e bem, a sua debulha, de assistir e perturbar a animação do balho das festas da colheita que fazia descansar a família da canseiras das cegaduras transactas e incitava à labuta da vindoura vindima, a gente do monte divertia-se. 

Chegara a hora das cantigas ao despique e o Zéi do Couço já se tinha insinuado e mesmo permitira-se dirigir umas indirectas, sem qualquer resposta da Raimundinha, mas foram tantas que esta não se conteve e às tantas disparou:

 “Diz-me cá ó Zéi do Couço

C’and’abalas cá do monti

P’ra levares pró tê almoço

Três marmelos qu’ê di onti”.

 Metido na troça geral e muito encavacado o Zéi do Couço, como bom brutamontes que era, retrucou:

 “S’os marmelos te dã festa

Ó os papas por entero

Ó c’arriata da besta

T’arribento o marmelero”.

 Com toda a gente de boca aberta e sem reacção, a Raimundinha, muito serena, replica:

 “N’árribentas marmelero

Pôs tu nã prestas p’ra nada!

Ê papo o marmelo entero

E é p’ra ti a marmelada”.

A expectativa da resposta do Zéi do Couço pôs no ar alguns cajados e outros de prevenção, que depois de grande hesitação lá se atreveu:

 “A marmelada que fazes

Dêt’á fora rapariga.

Ê quer’é fazer as pazes

E que sejas minh’amiga”.

 Nesta altura o lavrador decidiu intervir e, com um olhar decidido, fez baixar alguns cajados, bem poucos, e encarando bem de frente o Zéi do Couço intima:

 “Aqui nã vás ter amiga

Nem qu’o diabo m’afronti.

Abala já c’a cantiga.

Nã venhas más ó mê monti”.

Aqui caíram todas as aspirações e orgulho do Zéi do Couço, e lá abala ele mais o seu séquito de récovas, de cabeças baixas e sem carga, comitivados pelas cortesias de um avantajado cortejo de bem alçados cajados e bordões, até às extremadas do Monte da Cruz de Pedra, e sem deixar saudades em quem ficou no balho das colheitas e no despique mofoso que se seguiu em sua memória.

 Prosador do Soltavento

  Prontos, gosta? o texto tem um fundo, de cor diferente. Isto é para ver que pode realçar partes do texto. Antes de publicar ainda vou fazer mais umas coisinhas, para o Mário ver e treinar.

Abraço

 

Posted by Raul - Ct1efg in 13:48:21
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